Stanislaw Ponte Preta
e o Festival de Besteira que Assola o País

Se o diabo entendesse de mulher
não teria rabo e nem chifre.
 

Sérgio Marcus Rangel Porto (Rio de Janeiro, 11 de janeiro de 1923 / 30 de setembro de 1968) foi cronista, escritor, radialista e compositor brasileiro. Ficou mais conhecido por seu pseudônimoStanislaw Ponte Preta.

Sérgio começou sua carreira jornalística no final dos anos 40, atuando em publicações como as revistas Sombra e Manchete e os jornais Última Hora, Tribuna da Imprensa e Diário Carioca. Nesse mesmo período Tomás Santa Rosa também atuava em vários jornais e boletins como ilustrador. Foi aí que surgiu o personagem Stanislaw Ponte Preta e suas crônicas satíricas, inspirado no personagem Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade.

Como Stanislaw Ponte Preta, publicou nada menos que sete coletâneas de crônicas, recolhidas numa espécie de antologia pela Editora José Olímpio, em 1989. Ele era um observador meticuloso e atento da realidade carioca, dotado de um raro senso de humor, ironia e extraordinário senso crítico, sabendo representar muito bem o drama e a comédia do cotidiano do Rio de Janeiro.

Stanislaw marcou sua presença em nossa literatura pela “capacidade de comunicar-se com todos os leitores, desde os mais apressados e superficiais aos mais reflexivos e requintados”. Ele sabia detectar e satirizar com precisão as deformações existentes na vida urbana, absorta no constante no vício do consumismo. Criador de tipos humanos – o que é difícil e também raro na crônica, criou Tia Zulmira, “a sábia ermitã da Boca do Mato”, o Primo Altamirando, “cínico e gozador”, o distraído Rosamundo, o dr. Data Vênia, “manipulador feroz dos lugares-comuns”, entre outros. Foi também novelista: seis de suas novelas estão reunidas no volume “As Cariocas”. “Garota de Ipanema” foi publicada em “A cidade e as ruas”, coletânea de vários autores.

Pode-se dizer que Ponte Preta é o cronista brasileiro por excelência, pelo fato de ter registrado as manifestações e atitudes que o Rio de Janeiro começava a importar das modernas sociedades de consumo. Daí suas crônicas serem atuais, pois conservam uma temática contemporânea e continuam sendo lidas com prazer e interesse. Por outro lado, sua prosa se renova a cada leitura, através de sua linguagem coloquial, “saindo do campo circunstancial para transcender aos limites de uma obra duradoura”.

Porto também contribuiu com publicações sobre música e escreveu shows musicais para boates, além de compor a música "Samba do Crioulo Doido".

Era boêmio, de um admirável senso de humor e sua aparência de homem sisudo escondia um intelectual peculiar capaz de fazer piadas corrosivas contra a ditadura militar e o moralismo social vigente, que fazem parte do FEBEAPÁ - Festival de Besteiras que Assola o País, livro publicado em três edições nos anos de 1966, 1967 e 1968. As piadas eram basicamente críticas aos costumes da época e à ditadura militar brasileira. Foi de suas maiores criações.

FEBEAPÁ

Foi com Febeapá - Festival de Besteiras que Assola o País (1966), volume dedicado aos abusos cometidos no país sob inspiração da ideologia da Redentora, apelido do golpe militar de 1964, que ele alcançou seu grande sucesso. O autor afirmava ser difícil precisar o dia em que as besteiras começaram a assolar o Brasil, mas disse ter notado um alastramento desse fenômeno depois que uma inspetora de ensino do interior de São Paulo, ao saber que o filho tirara zero numa prova de matemática (embora sabendo que o menino tratava-se de um debilóide), não vacilara em apontar o professor às autoridades como perigoso agente comunista. Outro exemplo, pela pena do autor: "Quando se desenhou a perspectiva de uma seca no interior cearense, as autoridades dirigiram uma circular aos prefeitos, solicitando informações sobre a situação local depois da passagem do equinócio. Um prefeito enviou a seguinte resposta à circular: 'Doutor Equinócio ainda não passou por aqui. Se chegar será recebido como amigo, com foguetes, passeata e festas". Era mestre das comparações enfáticas, como "mais inchada do que cabeça de botafoguense", "mais feia do que mudança de pobre".

O excesso de obrigações seria demais para o cardíaco Sérgio Porto, que morreu de infarto aos 45 anos de idade.
Porto não viveu para presenciar o Ato Institucional Número Cinco, mas em sua memória um grupo de jornalistas e intelectuais fundou o semanário O Pasquim, em1969.

 


 

 


“Uma feijoada só é realmente completa quando tem ambulância de plantão.”

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"Samba do Crioulo Doido"
1968

Foi em Diamantina
Onde nasceu JK
Que a Princesa Leopoldina
Arresolveu se casá
Mas Chica da Silva
Tinha outros pretendentes
E obrigou a princesa
A se casar com Tiradentes

Lá iá lá iá lá ia
O bode que deu vou te contar
Lá iá lá iá lá iá
O bode que deu vou te contar

Joaquim José
Que também é
Da Silva Xavier
Queria ser dono do mundo
E se elegeu Pedro II
Das estradas de Minas
Seguiu pra São Paulo
E falou com Anchieta
O vigário dos índios
Aliou-se a Dom Pedro
E acabou com a falseta

Da união deles dois
Ficou resolvida a questão
E foi proclamada a escravidão
E foi proclamada a escravidão

Assim se conta essa história
Que é dos dois a maior glória
Dona Leopoldina virou trem
E Dão Pedro é uma estação também

O, ô, ô, ô, ô, ô
O trem tá atrasado ou já passou